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Campus:
CAMPUS PARACURU
Tipo da Ação:
Evento
Título:
Território que alimenta e espiritualidade que sustenta: formação docente, cosmociências indígenas e Bem Viver Anacé
Área Temática:
Direitos Humanos e Justiça
Linha de Extensão:
Formação de Professores
Data de Início:
05/03/2026
Previsão de Fim:
26/06/2026
Nº mínimo de pessoas beneficiadas:
20
Nº máximo de pessoas beneficiadas:
25
Carga Horária de Execução do Evento:
39
Local de Atuação:
Urbano-Rural
Fomento:
Edital do Programa Escola Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais
Programa Institucional
NEABIs
Modelo de Oferta da Atividade:
Presencial
Municípios de abrangência
Paracuru
Paraipaba
São Gonçalo do Amarante
Caucaia
Formas de Avaliação:
Participação
Relatório
Frequência
Reunião
Debate
Formas de Divulgação:
Redes sociais
Atividades Realizadas:
Minicurso
Apresentação
Oficina
Nome do Responsável:
Iara Saraiva Martins
Equipe:
Nome Instituição Categoria Vínculo Receberá bolsa? Horas Semanais Dedicadas Início da Participação Fim da Participação
Angela Maria Morais Souza Mestra de Saberes Tradicionais Anacé Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Angélica Morais Souza Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Anne Estefany Barroso Gomes Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Antônia Paulino dos Santos Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Antonio Italo de Sousa Moura IFCE Integrante Discente IFCE Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Camile Oliveira Dias IFCE Integrante Discente IFCE Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Clelia Morais Silva Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Cleosangela Sales de Morais Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Francisca Luciana Albuquerque Benevides Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Francisco Carlos Falcão Junior Equipe Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Gustavo Moraes de Sales Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Haroldo Agostinho da Silva IFCE Integrante Discente IFCE Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Iara Saraiva Martins IFCE Coordenador Docente IFCE Sim 1 05/03/2026 26/06/2026
João Gleidson dos Santos Oliveira Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Josenir Policarpo Ribeiro Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
José Wanderson Oliveira Wan-Lume Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Liliane Sales Paulino dos Santos Equipe Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Lucilane Paulino Nogueira Equipe Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Luzia Rosiany Ribeiro Varela IFCE Integrante Discente IFCE Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Maria Cleane Sales de Moraes Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Maria Isadora Sousa de Brito Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Maria José Paulino dos Santos Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Maria Regineide de Souza Freitas Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Pedro Henrique Gomes de Oliveira IFCE Integrante Discente IFCE Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Samara Moraes dos Santos Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Thereza Raquel Vieira de Lima Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Yanne Policarpo Oliveira Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Yasmin Policarpo Oliveira Cursista Escola Nego Bispo Integrante Sem vínculo Sim 2 05/03/2026 26/06/2026
Parcerias:
Instituição Parceira Parceria Formalizada? Instrumento Utilizado Número do Instrumento
Escola Indígena Direito de Aprender do Povo Anacé; Articulação Jovem Anacé; CIPASAC Não
Orçamento:
Conta Valor
Bolsa - Auxílio Financeiro a Estudantes 600.0
Bolsa - Auxílio Financeiro a Pesquisadores 6300.0
Diárias - Pessoal Civil 0.0
Encargos Patronais 0.0
Equipamento e Material Permanente 0.0
Material de Consumo 5000.0
Outros Serviços de Terceiros - Pessoa Física 0.0
Outros Serviços de Terceiros - Pessoa Jurídica 0.0
Passagens e Despesas com Locomoção 0.0
Vínculos:
Ação Tipo
Apresentação
O presente minicurso está alinhado à Portaria MEC nº 537/2025 e ao Edital Nacional Nego Bispo de Saberes Tradicionais. Esta atividade integra as ações formativas da Escola Nacional Nego Bispo e tem como foco a valorização das epistemologias plurais, da ancestralidade, da oralidade e das práticas tradicionais afro-brasileiras, indígenas e quilombolas. A Formação em cosmociência, cultura alimentar e espiritualidade indígena Anacé fundamenta-se nas vivências da Reserva Indígena Taba dos Anacé, território em contínuo processo de reconstrução de sua tradicionalidade após dinâmicas históricas de expulsão e reterritorialização associadas à implantação do Complexo Industrial e Portuário do Pecém, no Ceará. As relações desenvolvidas em torno da cultura alimentar têm desempenhado papel essencial na reconstrução da coletividade entre os indígenas realocados na reserva a partir do ano de 2018. O cultivo, o preparo e o compartilhamento dos alimentos tornaram-se práticas de reafirmação e fortalecimento dos vínculos comunitários, reatualizando memórias e valores ancestrais de partilha e reciprocidade. Partindo do reconhecimento de que a cultura alimentar indígena é uma expressão ancestral que integra espiritualidade, memória e práticas de cuidado com a vida, o curso propõe o diálogo entre saberes tradicionais e perspectivas das cosmociências originárias, fortalecendo práticas culturais e espirituais orientadas pelo Bem Viver. Com carga horária de 60 horas, a formação destina-se a estudantes de licenciatura, professores indígenas e juventudes do território, promovendo o intercâmbio entre gerações e contextos educativos diversos. No âmbito da formação de professores, a proposta amplia a compreensão sobre epistemologias indígenas e modos plurais de produção do conhecimento, favorecendo práticas pedagógicas interculturais, decoloniais e contra-coloniais. Ao reconhecer o território como espaço de aprendizagem e os saberes tradicionais como fundamentos da educação, o curso contribui para consolidar práticas docentes que valorizam a diversidade cultural, ambiental e espiritual como dimensões indissociáveis da formação humana. Construído em parceria com lideranças, educadoras e guardiãs da cultura Anacé, a formação reafirma o compromisso com uma educação que integra formação docente, território e ancestralidade, reconhecendo a escola como espaço de diálogo, reciprocidade e fortalecimento dos saberes originários.
Justificativa
As cosmociências originárias reconhecem a interconexão profunda entre todos os elementos do cosmos: seres humanos, não-humanos, ancestrais, territórios, natureza e espiritualidade. Nas palavras do pensador indígena Ailton Krenak (2019, p. 32), “O que chamamos de natureza é o conjunto de seres que compartilham conosco a experiência da vida no planeta Terra.” Esta visão contrasta radicalmente com a perspectiva mecanicista que separa sujeito e objeto, mente e corpo, cultura e natureza. Nesse sentido, as cosmociências indígenas valorizam os saberes ancestrais como sistemas complexos de conhecimentos com epistemologias próprias. As mestras e mestres tradicionais: pajés, mezinheiras, xamãs, griôs, benzedeiras, parteiras, raizeiros e lideranças são reconhecidos como bibliotecas vivas que desenvolveram métodos de observação, experimentação e reprodução de conhecimentos ao longo de gerações. Para Cristine Takuá (2018), os conhecimentos dos povos indígenas não são fórmulas prontas; eles se recriam e se transformam a cada experiência, em diálogo com os seres do território e com os ciclos da natureza. As cosmociências indígenas partem do princípio de que tudo está interligado em uma teia de relações. O pensador quilombola Antônio Bispo dos Santos (2015) propõe os conceitos de “confluência” e “biointeração” para descrever como diferentes formas de vida e de conhecimento podem coexistir sem dominação ou apagamento. Em sua obra “A terra dá, a terra quer”, Bispo explica que “nem tudo que se ajunta se mistura” e “nem tudo que se mistura se ajunta” (BISPO DOS SANTOS, 2015, p. 89), mostrando que cada elemento mantém sua singularidade mesmo ao se relacionar com outros. Nas cosmociências indígenas, o território não é apenas espaço físico, mas entidade viva e pedagógica. Para Célia Xakriabá (2019), “negociar nosso território é negociar nossas vidas", afirmação que revela que a terra traz consigo saberes, memória e existência espiritual. Essa concepção reconhece que os saberes emergem da relação íntima com os lugares, com suas águas, matas, montanhas e seres que os habitam. De modo similar, Sônia Guajajara lembra que ‘nossos saberes nos garantem as condições de reproduzir nossos modos de vida, a nossa organização social, nossos costumes’ (2024), afirmando que ciência, espiritualidade e rito nunca podem ser dissociados nos saberes indígenas. Essa integração não desmerece o rigor dos saberes tradicionais; ao contrário, lhe confere dimensão ética, relacional e existencial frequentemente omitida na ciência moderna. As cosmociências indígenas e a concepção de Bem Viver são compartimentos simbólicos de mundos em que a vida, o território e o espírito estão entrelaçados em um diálogo contínuo. Em muitos estudos sobre o Bem Viver, observa-se que esse conceito emerge como alternativa ao paradigma do desenvolvimento econômico capitalista, propondo, em vez da exploração ilimitada, uma vida em equilíbrio e harmonia com a natureza. No contexto latino-americano, o Bem Viver se manifesta como paradigma político-cultural que valoriza a pluralidade, a reciprocidade, a diversidade e a descolonização de epistemologias (KANTNER; PEIXOTO, 2023). No Brasil, estudos sobre povos indígenas mostram que o Bem Viver está intimamente ligado à noção de território vivo. Outra via de aproximação é ver que as cosmociências indígenas trazem uma lógica holística e relacional que corresponde aos fundamentos éticos do Bem Viver: a natureza não é um recurso, mas parte ativa de uma comunidade ampliada. Nesse sentido, as cosmociências originárias sustentam que os saberes indígenas não são meramente locais, mas expressões de uma cosmovisão que busca uma vida digna para todos os que habitam o mundo, humanos e não-humanos. A Cultura Alimentar indígena é uma cosmociência porque ela não se limita ao preparo de alimentos ou às práticas agrícolas - ela expressa um conjunto de saberes, valores, espiritualidades e territorialidades que organizam a vida coletiva dos povos. Ela articula conhecimentos sobre ciclos da natureza, manejo ambiental, memória ancestral, rituais espirituais, linguagens simbólicas e práticas de cura, funcionando como um verdadeiro sistema de conhecimento e de produção de vida (CUNHA, 2009; POSEY, 2000). Nos contextos indígenas, alimentar-se é um ato cosmológico: é respeitar os ciclos do território, ativar memórias dos ancestrais e praticar reciprocidade com os seres não humanos. Como observa Manuela Carneiro da Cunha (2009), os saberes tradicionais indígenas constituem sistemas complexos que envolvem manejo da biodiversidade, cosmologia e práticas culturais, sendo inseparáveis da organização social. Da mesma forma, Darrell Posey (2000) mostra que os sistemas tradicionais de uso da biodiversidade entre povos indígenas são sustentados por redes de significados espirituais e cosmológicos, que vão muito além de uma visão utilitarista. A cosmociência da cultura alimentar também se expressa na noção de “alimentação-território”, que aparece em autores como Guzmán (2012) ao discutir agroecologia e saberes locais, e nos estudos brasileiros sobre segurança alimentar indígena (COIMBRA JR.; SANTOS, 2013). Esse conceito aponta que os sistemas alimentares indígenas não são apenas subsistência, mas modos de bem viver: estratégias para garantir saúde, identidade, autonomia, socialização de valores e resistência cultural. Diversos rituais indígenas têm no alimento um elemento central de conexão com o sagrado: festas da mandioca, rituais de caça e pesca, partilhas coletivas. Nesses contextos, comer é também rezar, celebrar e renovar alianças espirituais. Darrell Posey (2000) mostra que os sistemas alimentares indígenas estão inseparavelmente ligados a práticas religiosas e cosmológicas. Na Reserva Indígena Taba dos Anacé, a cultura alimentar e a Espiritualidade constituem dimensões inseparáveis do Bem Viver, articulando saberes tradicionais, territorialidade e memória ancestral. Conforme analisa Rute Morais Souza (2019), a reterritorialização Anacé não se limita à conquista formal da terra, mas envolve reconstruir práticas culturais e espirituais abaladas pelo deslocamento forçado. Nesse processo, a produção e o preparo de alimentos tradicionais, como o beiju de mandioca, o uso de plantas nativas e os encontros coletivos em torno das cozinhas comunitárias não são apenas estratégias de subsistência, mas práticas de revitalização identitária e espiritual. As festas e vivências formativas realizadas na Taba dos Anacé também evidenciam esse vínculo entre alimento e espiritualidade. Morais Souza (2021) mostra que eventos como a Festa de São Gonçalo e apresentações do Coco do Povo Anacé funcionam como momentos de circulação de alimentos, rezas, danças e grafismos indígenas, integrando corpo, território e cosmos. A partilha do alimento, nesses contextos, adquire sentido espiritual: cada etapa do preparo reafirma valores de cuidado, reciprocidade e solidariedade. Assim, a cultura alimentar se torna eixo estruturante do Bem Viver, fortalecendo a saúde integral, a soberania alimentar e a continuidade das práticas espirituais ligadas ao território.
Público Alvo
Estudantes de licenciatura; professores; professores indígenas; indigenistas; juventudes periféricas e tradicionais.
Objetivo Geral
Promover a valorização, sistematização e difusão dos saberes tradicionais do povo indígena Anacé, fortalecendo a formação intercultural de estudantes de licenciatura, professores indígenas e juventudes.
Objetivo Específico
I –Valorizar a cultura alimentar e espiritualidade Anacé como práticas estruturantes do Bem Viver, compreendendo-as como sistemas de conhecimento (cosmociências) que articulam dimensões ambientais, espirituais, pedagógicas e comunitárias; II –Fortalecer a educação diferenciada e a formação continuada de professores indígenas, estudantes de licenciatura e juventudes, contribuindo para a efetividade das Leis 10.639/2003 e 11.645/2008 que orientam a inserção dos saberes indígenas e afro-brasileiros nos currículos escolares; III –Reconhecer e legitimar mestras e mestres de saberes tradicionais como sujeitos epistêmicos, apresentando como docente uma liderança referência em cultura alimentar, espiritualidade e ancestralidade Anacé; IV –Desenvolver repertórios pedagógicos e curriculares sensíveis à territorialidade e à cosmopercepção Anacé, fomentando a construção de materiais didáticos, práticas e reflexões;
Metodologia
A metodologia da Formação em cosmociência, cultura alimentar e espiritualidade indígena Anacé será participativa, intercultural e situada no território, articulando teoria e prática por meio de vivências, rodas de conversa, oficinas práticas, visitas guiadas e produção coletiva de materiais didáticos. O curso será ministrado no território indígena, garantindo que a experiência formativa aconteça no espaço onde os saberes são produzidos e atualizados, permitindo uma aprendizagem sensível ao contexto social, cultural e ambiental dos Anacé. Todas as atividades didático-pedagógicas e vivências serão conduzidas e orientadas pela mestra de saberes tradicionais do povo Anacé, conforme prevê a Escola Nego Bispo de Saberes Tradicionais. Essa composição assegura o protagonismo dos mestres e mestras na coprodução do curso, fortalecendo uma prática pedagógica pautada na escuta, na reciprocidade e na valorização dos saberes originários. O trabalho pedagógico se fundamentará em metodologias ativas e dialógicas, priorizando o protagonismo dos participantes: estudantes de licenciatura, professores indígenas e juventudes -valorizando os mestres e mestras tradicionais como sujeitos epistêmicos. As aulas serão mediadas por critérios de oralidade, memória coletiva e corporeidade, em consonância com as formas tradicionais de socialização de conhecimento do povo Anacé (MORAIS SOUZA, 2021).